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Investidor se volta para América Latina em meio a guerra na Europa, mas riscos persistem

Anisha Sircar
Anisha Sircar
Correspondent, Reuters News Agency
Rodrigo Campos
Rodrigo Campos
Emerging Markets Correspondent at Reuters News Agency

Um ciclo de alta de juros iniciado no ano passado e baixas avaliações já fizeram da América Latina um destino querido para investidores em 2022, e a invasão da Ucrânia pela Rússia provavelmente manterá o fluxo de caixa para a região exportadora de commodities.

Os riscos são idiossincráticos e vêm principalmente da exposição a eventos eleitorais ou a um novo aumento na inflação, disseram analistas.

Os mercados de ações latino-americanos medidos em dólares estão superando as economias maiores em cerca de 25 pontos percentuais neste ano, com o índice MSCI Latam em alta de 11% no ano, enquanto o índice do mundo desenvolvido cai cerca de 13%.

Até agora neste ano, os fluxos estrangeiros para as carteiras de ações e títulos da América Latina totalizaram cerca de 18 bilhões de dólares até fevereiro, enquanto o restante dos mercados emergentes recebeu aporte líquido de 7,5 bilhões de dólares.

A invasão ucraniana, chamada de “operação especial” por Moscou, aumentou a aversão ao risco na Europa emergente, mas pode reforçar o desempenho superior da América Latina.

“Em meio a toda a volatilidade atual, a América Latina pode ter algumas oportunidades. Alguns mercados podem ser impactados positivamente por preços mais altos de commodities e também por um maior volume de fluxos de investimentos por gestores de portfólio de Mercados Emergentes”, disse Alfonso Eyzaguirre, CEO do JPMorgan Chase para América Latina e Canadá.

Ele acrescentou que as restrições de investimento na Rússia, Ucrânia e países vizinhos podem aumentar o peso da América Latina nas carteiras de mercados emergentes.

O presidente dos EUA, Joe Biden, anunciou nesta terça-feira a proibição da importação do petróleo russo e de outros produtos de energia. O barril de petróleo alcançou nesta semana seu preço mais alto desde meados de 2008.

As moedas regionais também têm mostrado desempenho melhor este ano. Os quatro mercados emergentes com melhor desempenho em relação ao dólar são do Brasil, Colômbia, Peru e Chile. Juntamente com os picos no preço do petróleo e dos alimentos, os movimentos cambiais contribuíram para o vento a favor da região.

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“O principal impacto na América Latina está vindo por meio de movimentos de preços de commodities –isso parece ter apoiado moedas como o real brasileiro e o peso colombiano. Até agora os beneficiários mais claros desses movimentos de preços de commodities são os exportadores de petróleo, como a Colômbia”, disse William Jackson, economista-chefe de mercados emergentes da Capital Economics.

“Mas haverá um custo em toda a região dos preços mais altos das commodities –é provável que eleve a inflação, e os bancos centrais provavelmente aumentarão as taxas de juros de forma mais agressiva.”

O ciclo de alta de juros que começou na América Latina antes de uma guinada “hawkish” do Federal Reserve também impulsionou o desempenho dos títulos em termos relativos.

Mesmo que os spreads soberanos e “quasi” soberanos tenham aumentado em todos os emergentes, os mercados emergentes na América Latina viram um aumento de 72 pontos-base neste ano, enquanto o prêmio de risco na Ásia subiu 92 pontos-base; na África 161 pontos-base; e na Europa, 778 pontos-base.

“Minha visão geral é que se você é um otimista com fundamentos de longo prazo (de algum mercado) provavelmente (ele) tem que ser o Chile”, disse Boris Schlossberg, diretor administrativo de câmbio da BK Asset Management.

“Se você está procurando uma recuperação de curto prazo, ou uma reversão realmente forte, é o Brasil. E a Argentina tem um ‘trade’ de longo prazo aqui no boom das commodities –é tão odiada por todos, e está basicamente tão vendida, que há pouco risco de queda neste momento.”

Ele disse que as ações brasileiras, que já subiram 7% em termos locais no acumulado do ano e perto de 20% em dólares, “serão provavelmente as mais sensíveis a altas.”

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Mas a incerteza política, bem como a aversão geral ao risco, podem atrapalhar o desempenho superior dos mercados da região.

A eleição para o Congresso da Colômbia neste fim de semana dará uma imagem mais clara das perspectivas para a corrida presidencial de maio, que até agora aponta um forte movimento para a esquerda.

Expectativas semelhantes existem para a eleição do Brasil em outubro, enquanto o Chile deve ratificar a reescrita da Constituição feita por uma convenção majoritária de centro-esquerda.

“A América Latina continua sendo uma região difícil de alocar estruturalmente devido a vários eventos de risco idiossincráticos, como eleições à frente na Colômbia e no Brasil, tensão política doméstica no Peru e uma reformulação da Constituição no Chile”, disseram analistas do Morgan Stanley em nota a clientes na segunda-feira.

“No México, a moeda e as taxas de juros locais provavelmente serão impactadas negativamente por um Fed mais agressivo e por pressões inflacionárias mais altas.”