Ir para conteúdo

Pandemia e protestos: agitação irrompe em mercados em desenvolvimento

Karin Strohecker
Karin Strohecker
Lead Correspondent Emerging Markets, Thomson Reuters

Da Tunísia e da África do Sul à Colômbia, a agitação social está varrendo os países em desenvolvimento, um lembrete da desigualdade de renda que se aprofundou durante a crise de Covid que já dura 18 meses.

Enquanto os países desenvolvidos implementaram injeções maciças de estímulos fiscal e monetário para proteger as economias e os cidadãos durante a pandemia, os países mais pobres carecem desse poder de fogo.

Os gráficos abaixo detalham algumas das causas e consequências dos distúrbios civis em todo o mundo em desenvolvimento:

Agitação em Alta

Motins, greves gerais e manifestações contra o governo em todo o mundo aumentaram 244% na última década, de acordo com o Índice de Paz Global de 2021.

No entanto, sua natureza mudou: as tensões derivam cada vez mais do impacto econômico da pandemia.

“A crescente inquietação com os lockdowns e a incerteza econômica em alta resultaram no aumento da agitação civil em 2020”, escreveram os autores do último relatório do índice.

“As mudanças nas condições econômicas em muitas nações aumentam a probabilidade de instabilidade política e manifestações violentas”, observaram os pesquisadores, acrescentando que registraram mais de 5.000 eventos violentos relacionados à pandemia de janeiro a abril deste ano.

Eles esperam pouca trégua no curto prazo.

Fator Pandemia

Surtos de doenças, desde a peste bubônica na Idade Média até a pandemia de gripe espanhola de 1918, moldaram a política, subverteram a ordem social e muitas vezes causaram inquietação.

As epidemias revelam ou pioram as linhas de falha pré-existentes. Os países com epidemias mais frequentes e graves também experimentaram uma agitação maior, em média, concluíram pesquisadores do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Uma pandemia pode suprimir a agitação nos estágios iniciais, como testemunhado no ano passado, com exceção do Líbano e dos EUA, segundo o economista do FMI Philip Barrett.

Depois disso, os riscos aumentam –incluindo o aumento do risco de uma grande crise governamental, evento que ameaça derrubar um governo e normalmente ocorre nos dois anos após uma epidemia severa.

A Tunísia parece um excelente exemplo: em janeiro, protestos engolfaram a já fraca economia ainda mais devastada pela pandemia, com o presidente Kais Saied deposto do governo no domingo, na maior crise política desde a revolução de 2011.

Gatilhos e Condutores

Geralmente, há alertas precoces de que os riscos estão aumentando.

O custo de vida mais alto, decorrente de reformas como a remoção dos subsídios aos alimentos e combustíveis, geralmente contribui. Outro fator frequente é o desmantelamento de mecanismos como um Judiciário independente, liberdade de imprensa ou liberdade de reunião, todos permitindo dissensões pacíficas, disse Miha Hribernik, da consultoria de risco Verisk Maplecroft.

A presença de grandes grupos marginalizados –políticos ou religiosos– contribui para a mistura.

Exemplos não faltam: uma discussão sobre um pequeno aumento no preço das passagens de metrô gerou protestos no Chile em 2019, embora profundas queixas em torno da desigualdade de renda já estivessem fervendo.

Na África do Sul, protestos mortais começaram em julho, após a prisão do ex-presidente Jacob Zuma. Mas também foram provavelmente o ápice das tensões causadas pela perda de empregos devido a lockdowns para conter a pandemia.

“A ‘faísca’ que desencadeia os protestos é muitas vezes o ditado a palha que quebra as costas do camelo e é impossível de prever”, disse Hribernik.

Impacto Macro

As consequências econômicas dependem dos motivadores e das circunstâncias específicas do país. Protestos ligados a política ou a eleições costumam ter um pequeno impacto –as manifestações após a eleição de Enrique Peña Nieto como presidente mexicano em 2012 ou a votação presidencial do Chile em 2013 reduziram o PIB em 0,2 ponto percentual seis meses depois, calcularam pesquisadores do FMI.

Mas se a agitação for motivada por preocupações socioeconômicas, as contrações tendem a ser mais agudas, disse o Fundo, citando os protestos de julho de 2019 em Hong Kong ou o movimento colete amarelo na França em 2018.

Ambos retiraram 1 ponto percentual do PIB.

“Manifestações desencadeadas por uma combinação de fatores socioeconômicos e políticos –não muito diferente do que vimos na Tunísia e na Tailândia no início deste ano– têm o maior impacto”, disse Metodij Hadzi-Vaskov, do FMI.

Instituições fracas e espaço limitado para políticas amplificam o impacto, o que significa que os países com fundamentos fracos já antes da pandemia serão os que mais sofrerão se o descontentamento social se transformar em agitação.

Implicações de Mercado e Políticas

As bolsas de valores em países autoritários sofrem mais com os protestos, caindo 2% nos três dias após o evento e 4% no mês seguinte, calcula o FMI.

Os títulos em dólar da Tunísia despencaram após sua última crise política. O rand da África do Sul desabou dias depois que protestos mortais devastaram o país. Distúrbios em seus portos movimentados foram sentidas bem além de suas fronteiras.

Alguns governos optam por acalmar manifestantes com concessões maiores, mas depois enfrentam questões sobre o financiamento de déficits orçamentários. Isso pode levar a custos de empréstimos mais elevados. A Colômbia, por exemplo, viu sua classificação de crédito cair para grau especulativo após reformas fiscais e protestos malsucedidos.

Para Yerlan Syzdykov, chefe global de mercados emergentes da Amundi, às vezes é apenas uma questão de saber se um governo pode sobreviver.

“Se não temos coesão social em um país, temos que tentar entender como o governo planeja reagir a isso … ou se há uma força política que entra e implementa a mudança.”