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Agronegócio abre canais com Lula e ensaia palanques, apesar de hegemonia de Bolsonaro no setor

Ricardo Brito
Ricardo Brito
Jornalista na Thomson Reuters Brasil
Lisandra Paraguassu
Lisandra Paraguassu
Repórter, Thomson Reuters

Um dos pilares do governo de Jair Bolsonaro (PL), o agronegócio começa a apresentar dissidências e representantes do setor abriram canais de negociação com seu maior rival, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), hoje na frente nas pesquisas eleitorais.

Na semana passada, em Brasília, Lula fechou apoio à candidatura ao Senado do deputado Neri Geller (PP-MT), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), em uma negociação que envolveu também o senador Carlos Fávaro (PSD-MT) –ambos ligados ao agronegócio.

O apoio vem em troca do envolvimento de Geller e Fávaro em um movimento que está levando setores do agronegócio a se aproximar de Lula, em um sinal de insatisfação com a política de Bolsonaro e, também, um reflexo das pesquisas eleitorais, que colocam Lula à frente do atual presidente.

Segundo Geller –que foi ministro da Agricultura no segundo mandato da presidente petista Dilma Rousseff–, o movimento de aproximação de Lula com o agro “cresceu muito”.

“Deu uma movimentação forte sim. Nesse jogo está Carlos Fávaro, está o pessoal do Blairo. E tem mais alguns parlamentares. Está um movimento bem legal assim no sentido da convergência realmente”, disse Geller.

Lula nunca esteve afastado do agro de fato. Além de manter bom relacionamento com nomes importantes da área, como o ex-governador do Mato Grosso e ex-ministro Blairo Maggi, o petista já teve algumas reuniões com representantes do setor.

Em janeiro deste ano, Blairo e Carlos Ernesto Augustin –outro empresário do setor e irmão de Arno Augustin, ex-secretário do Tesouro no governo Dilma– articularam um encontro com nomes do setor, que incluiu empresários ligados à Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Na época, a associação, que se aproximou muito do governo Bolsonaro, negou que tenha enviado oficialmente representantes, de acordo com uma fonte ouvida pela Reuters.

Candidato a governador pelo PT em Tocantins, o ex-deputado Pedro Mourão é outro que tem feito pontes com o agro na sua região. Em conversa com Lula em Brasília, na semana passada, acertou uma visita ao Estado que deve incluir uma reunião com ruralistas da região.

“Nessa passagem lá (ainda sem data) ele fala com setores do agronegócio. A maioria ainda continua com Bolsonaro, mas já tem uma parcela bem significativa de pessoas que estão procurando dialogar, entender”, disse.

O candidato a vice da chapa de Lula, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSB), é outro apontado como emissário da campanha no setor, uma espécie de “porta-voz do Lula”. Ele tem tido conversas onde tem mais entrada, caso do interior paulista, mas também deve ir a outros Estados, em viagens independentes do ex-presidente, para conversar com o setor. Em agosto estão previstas algumas agendas no Tocantins e em Mato Grosso, em uma espécie de preparatória para as viagens de Lula.

Nesta semana, em outra frente, Neri Geller iria se reunir em São Paulo com o ex-ministro Aloizio Mercadante, coordenador do programa de governo de Lula, para começar a traçar uma proposta para levar nas conversas com representantes do setor.

Questionado sobre o caso de Neri Geller, em que o PP local fechou uma aliança para dar palanque para Lula, o presidente em exercício do partido, Cláudio Cajado (BA), disse que a posição da cúpula da legenda é “preferencialmente” a reeleição de Bolsonaro, mas não há veto a outros acertos porque o principal objetivo é garantir a reeleição dos deputados federais e aumentar a bancada na Câmara na próxima legislatura.

“Nós não fechamos questão para que deputados federais possam melhorar seu desempenho nos Estados”, afirmou ele, ao acrescentar que, além de Mato Grosso, em outros Estados estão ocorrendo definições sobre alianças.

O respaldo de Fávaro e Geller à candidatura de Lula gerou reações no setor. O Sindicato Rural de Sinop (MT) divulgou uma nota de repúdio com o que chamou de “apoio nefasto” dos dois e dizendo que isso visa dar suporte a um só grupo econômico, numa referência ao grupo da família de Blairo Maggi.

“Esse apoio político de ‘Fávaro e Nerizão’ revelam apenas que seus perfis não estão voltados ao agro e à família brasileira, mas demonstra ação retrógrada e oportunista, que vem, de forma acintosa, desconstruir os avanços obtidos nos legítimos movimentos sociais do setor produtivo, envergonhando os produtores rurais que tanto trabalharam para esse Estado”, afirmou.

À imprensa local, Fávaro chamou a crítica de vergonhosa e injusta.

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Meio Ambiente

Em outra frente, entre ambientalistas surgiram também reclamações sobre os acordos feitos por Lula. Geller é responsável por um projeto aprovado na Câmara que praticamente extingue a necessidade de licenciamento ambiental em 10 atividades consideradas de alto risco. E Fávaro é o relator do chamado “PL da Grilagem”, que ampliou em 10 anos o prazo para regularização de terras invadidas, entre outros pontos.

Em comentário feito ao jornal Folha de S.Paulo, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva –que vem se reaproximando do PT e de Lula– disse que se aliar a nomes como Geller e Fávaro é “é criar amarras com o atraso, estimular vetos internacionais ao agronegócio do Brasil e manter o país na condição de pária ambiental”.

Também ex-ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira –que vem colaborando com o programa de governo de Lula– minimiza o risco.

“O que eu vejo é que primeiro se tem que ganhar a eleição, e esses são arranjos que viabilizam a eleição. Outra coisa será a política depois da eleição. É na transição que se faz a convergência de ideias”, disse a ex-ministra à Reuters.

Izabella lembra que Lula já se comprometeu mais de uma vez com o desmatamento zero e a proteção das terras indígenas, e não vê como um conflito insolúvel.

“A agricultura brasileira é estratégica para o desenvolvimento do país. O que se precisa é construir um diálogo, e na transição que se fará a convergência”, defendeu.

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Sem preocupação

Na campanha de Bolsonaro, segundo fontes ouvidas, essas articulações de aliados de Lula não preocupam, porque a avaliação é que são defecções mínimas e que o setor está praticamente fechado com o atual presidente.