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Campanha de Bolsonaro é pega de surpresa ao ter que lidar com ataques na batalha digital

Anthony Boadle
Anthony Boadle
Correspondente da Reuters em Brasília
Ricardo Brito
Ricardo Brito
Jornalista na Thomson Reuters Brasil

A acirrada corrida presidencial tem mostrado uma batalha cada vez mais sangrenta nos ataques de ambos os lados, com insinuações de canibalismo, pedofilia e adoração ao diabo, e a campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL) se viu inesperadamente na defensiva, perdendo um tempo precioso em seu esforço para virar o jogo contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Dois assessores sêniores de Bolsonaro –que assumiu o cargo há quatro anos após ação digital super agressiva contra os rivais– disseram que sua campanha foi surpreendida pela eficácia dos ataques de Lula e aliados, que aproveitaram vídeos antigos e recentes deslizes para atingir o presidente.

“A gente não esperava nem estava preparado para a atuação deles nas redes sociais. Isso nos causou muitos danos”, disse um dos assessores de campanha sob condição de anonimato.

Em uma linha de ataque, aliados de Lula desenterraram uma entrevista de 2016 na qual Bolsonaro diz estar disposto a comer carne humana em um ritual indígena não especificado. Em outro, circularam imagens antigas de Bolsonaro discursando em lojas maçônicas, consideradas templos pagãos por alguns de seus aliados evangélicos.

No ataque mais explosivo até agora, a campanha de Lula fez uma propaganda de ataque a partir do relato de Bolsonaro, em um podcast de sexta-feira, sobre visitar a casa de adolescentes venezuelanas que ele insinuou estarem se preparando para prostituição.

O presidente ganhou uma liminar na Justiça eleitoral que determinou a retirada do ar daquele conteúdo e manteve o assunto fora de um debate com Lula no último domingo. Bolsonaro negou qualquer associação com canibalismo ou rituais pagãos e classificou as insinuações de pedofilia como mentiras difamatórias. Mas os assuntos dominaram a cobertura da campanha e as conversas online por dias.

Uma pesquisa de monitoramento mostrou que a vantagem de Lula, que caiu para apenas 3 pontos percentuais antes do fim de semana, voltou para 52% a 45% sobre Bolsonaro na terça-feira, segundo uma consultoria política que pediu anonimato para discutir pesquisas privadas.

As pesquisas públicas continuam mostrando uma corrida praticamente estável, com Lula apresentando uma vantagem de cerca de 5 pontos percentuais, conforme a obtida no primeiro turno das eleições, em 2 de outubro.

Mas cada semana que passa sem que Bolsonaro ganhe terreno é uma batalha vencida por Lula.

“O Bolsonaro é vítima de sua própria moral, ao construir um tipo de comunicação política baseada na produção do sarcasmo, da chacota, da humilhação, de criar fatos que jogam lama no debate público, que dividem a sociedade”, disse Fabio Malini, professor de novas mídias da Universidade Federal do Espírito Santo.

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“Telenovela brasileira”

Bolsonaro não tem vergonha de rebater.

“O foco agora é atacar Lula e provocar temores sobre ele voltar ao poder”, disse uma segunda fonte da campanha de Bolsonaro.

Segundo os assessores de campanha de Bolsonaro, suas pesquisas indicam que 8% a 10% dos apoiadores de Lula ainda podem ser influenciados com argumentos de que um governo de esquerda pode desencadear ondas de crimes, ruína econômica e retrocessos para os conservadores.

As propagandas do presidente sugerem que Lula legalizará o aborto e fechará igrejas, o que o ex-presidente tem negado repetidamente.

Uma linha de ataque mais extravagante de aliados de Bolsonaro forçou a campanha de Lula a negar diretamente nas redes sociais: “Lula não tem pacto nem jamais conversou com o diabo”.

Mas, diferentemente da campanha presidencial de 2018, quando o PT estava em grande parte isolado e despreparado para uma guerra digital suja nas semanas finais da corrida, desta vez o ex-presidente possui uma série de aliados se juntando a ele nas trincheiras online.

Felipe Neto, uma celebridade digital que tem 15 milhões de seguidores no Twitter e quase 17 milhões no Instagram, pressionou pelo impeachment da sucessora de Lula, Dilma Rousseff, no passado, mas agora defende o petista diariamente na internet, enquanto amplia os ataques a Bolsonaro.

O deputado André Janones (Avante-MG), cujo partido havia demonstrado apoio à agenda de Bolsonaro no Congresso, desistiu de sua própria candidatura presidencial para apoiar Lula, trazendo fúria aos debates online.

“Janones é um fenômeno da internet produzido pela pandemia”, disse Malini. “Não acho que ele é um fabricante de fake news. Ele é na verdade uma espécie de ‘spin doctor’ do mundo digital. Toda essa habilidade dele foi trazida para dentro da campanha de Lula.”

“Os intensos ataques e contra-ataques em cima de rumores, em cima de meias verdades, faz com que a eleição pareça uma telenovela.”