Ir para conteúdo

Market Voice: Os preços do petróleo já atingiram o ápice?

Ron Leven
Ron Leven
Professor de Economia na Duke University

Após o colapso que a pandemia provocou nos preços do petróleo, o mercado reagiu e conseguiu se recuperar. Agora, com as cotações beirando a estabilidade, o Market Voice, coluna mensal da Refinitiv, analisa se o atual patamar representa apenas uma “pausa para respirar” ou se o valor da commodity já teria atingido o teto.


  1. Após a queda nas cotações do petróleo deflagrada pela Covid-19, as condições comerciais se normalizaram e o preço subiu em linha com a recuperação econômica global.
  2. O valor do barril da commodity está atualmente estável, ao redor de US$ 60, e uma série de fatores determinarão a sua direção futura, incluindo demanda, fracking (fraturamento hidráulico) nos EUA e as obscuras políticas da Arábia Saudita.
  3. Com a maior produção e popularidade de carros elétricos haverá um impacto negativo nas perspectivas de longo prazo para o preço do petróleo.

Para mais informações baseadas em dados diretamente no seu inbox, assine o boletim semanal Refinitiv Perspectives

Ao longo dos últimos anos, o excesso de oferta já vinha afetando o mercado de petróleo, chegando ao ponto de tornar o espaço de armazenamento extremamente escasso no início da pandemia.

O súbito colapso na demanda global afetou em cheio o mercado de energia, já que uma sobra ainda maior do produto não tinha como ser escoada. Então, no momento em que os contratos futuros de abril de 2020 deveriam ser liquidados, vimos a cotação do petróleo entrar brevemente em território negativo (a -US$ 40/bbl) para “limpar” o mercado.

Mesmo com esse choque, as condições comerciais se normalizaram rapidamente, e os preços retornaram a um patamar positivo tão logos os contratos de abril foram firmados.

Refinitiv Eikon: Conheça o nosso conjunto definitivo de ferramentas para turbinar sua análise dos mercados financeiros

Preço do petróleo: recuperação em linha com a economia

Desde então, a commodity se valorizou gradualmente, acompanhando a reacomodação da economia global.

O Gráfico 1 indica o desempenho do petróleo desde o início de 2020. Mas, em vez do contrato de rolling front, mostramos o seguinte a fim de eliminar o movimento extremo que foi a liquidação do contrato de abril.

Naquela época, o contrato do mês seguinte –liquidação de maio, por exemplo— caiu drasticamente, mas nunca chegou a ficar negativo.

Esse indicador menos distorcido dos preços do petróleo acompanhou o mercado de ações dos EUA (representado no gráfico pelo índice S&P 500). No entanto, como as ações têm seguido uma trajetória ascendente, a cotação da commodity atingiu o pico de US$ 65 e acabou se estabilizando em pouco menos de US$60.

Portanto, a nossa dúvida é: isso é uma calmaria temporária ou o petróleo já se valorizou ao máximo?

Gráfico 1: SPX e a cotação do petróleo (NYMEX)

Como podemos ver no Gráfico 2, baseado na Agência Internacional de Energia (AIE), os preços do petróleo acompanham o saldo da demanda líquida global. Ou seja, oferta mais restrita está associada a preços mais altos.

Exceto pela turbulência que testemunhamos na primavera (no hemisfério norte) de 2020, a direção e a magnitude dos movimentos de preços trimestrais têm sido consistentes com a dinâmica da demanda versus oferta.

A boa notícia é que a valorização da commodity para o nível atual, de US$ 60, foi amparada pelo constante aperto na demanda durante 2020. Mas, segundo as projeções da AIE, mesmo com a economia global se recuperando da pandemia, não veremos um aperto significativo na demanda até o final de 2022.

Gráfico 2: Demanda global líquida trimestral e desempenho do preço do petróleo

Fonte: Eikon e Agência Internacional de Energia (AIE)

Afinal, as notícias são realmente boas?

Há sempre dois lados no equilíbrio entre oferta e demanda. Por meio do fracking, os Estados Unidos têm sido uma importante fonte de aumento da oferta nos últimos anos. Conforme mostrado no Gráfico 3, a produção de petróleo dos EUA respondeu à recuperação dos preços no primeiro semestre de 2020, mas a oferta atingiu o pico durante a segunda metade do ano e permanece próxima aos níveis do final de 2018.

A produção global também apresentou uma reação, e em dezembro de 2020 atingiu 75 milhões de bbd. Essa quantidade, no entanto, ainda ficou 10% abaixo do patamar do ano anterior.

Gráfico 3: Produção semanal de petróleo nos EUA e preço do petróleo

Fonte: Eikon

As perspectivas para o abastecimento internacional permanecem obscuras devido aos sinais contraditórios da Arábia Saudita. Em 17 de fevereiro, o país havia anunciado a intenção de elevar a oferta nos próximos meses, mas pouco depois, em março, indicou que a manteria estável.

Porém, os sauditas têm duas razões convincentes para querer limitar a alta da cotação do petróleo. Em primeiro lugar, eles continuam em conflito com a Rússia sobre sua política de apoio ao regime de Assad, na Síria, e podem enxergar os preços mais baixos da commodity como um meio de frear a capacidade de Putin de fornecer apoio militar contínuo ao ditador.

Outro motivo (e este talvez seja o principal) é que com o ritmo de bombeamento atual as reservas de petróleo da Arábia Saudita não se esgotarão por quase um século. Assim, eles devem considerar que um ganho de curto prazo acabaria levando a algo negativo no longo termo, já que poderia acelerar o movimento para combustíveis alternativos e/ou tecnologias para economia de energia.

Assista: Eikon – The ultimate set of tools for analysing financial market

A ameaça dos carros elétricos

O sucesso do Model 3, da Tesla, tornou evidente que os veículos elétricos são o futuro.

E mesmo as maiores empresas de petróleo já se preparam para essa realidade. Exxon e BP, entre outras, vêm trabalhando com a estimativa de que a produção de veículos elétricos chegue a 100 milhões de unidades por ano em apenas duas décadas. Além disso, temos visto uma forte ligação entre o desempenho das ações da Tesla e o preço do petróleo.

O Gráfico 4 indica que quando o índice SPX tem desempenho inferior ao das ações da Tesla, a cotação da commodity geralmente cai. Mas houve uma divergência dramática: embora o SPX esteja alcançando novos recordes, o mesmo aconteceu com a Tesla, que manteve a trajetória relativamente elevada estabelecida desde o início da pandemia.

Mesmo se assumirmos que a Covid-19 distorceu permanentemente essa relação, o forte desempenho da Tesla parece ir contra à possibilidade de aumento adicional no valor do petróleo.

Gráfico 4: Desempenho da Tesla e preço do petróleo

Fonte: Eikon

Perspectivas de médio e longo prazo

Com o fim dos automóveis movidos a gasolina teremos uma demanda muito maior por eletricidade.

E, à medida em que o petróleo se mantém como uma importante fonte de geração de energia, a adoção de carros elétricos será benéfica para a sua cotação. Entretanto, como podemos conferir no Gráfico 5, a Agência de Informação de Energia dos  EUA acredita que a maior parte da produção elétrica futura virá de gás natural e de outros combustíveis alternativos, com um crescimento apenas marginal no uso da commodity.

Se a recuperação da atividade econômica global persistir, as perspectivas de curto prazo para o petróleo parecem ligeiramente positivas, mas o patamar de US$ 65 deverá limitar o mercado.

Na verdade, as projeções da AIE sugerem que há poucas vantagens para o combustível pelo menos até 2022 –embora não possamos descartar um salto inesperado na atividade econômica global, o que o levaria a novas máximas.

Contudo, o movimento aparentemente inevitável rumo aos veículos elétricos pinta um quadro estrutural negativo de longo prazo para a demanda de petróleo, uma vez que o uso de energia deve se deslocar para outras fontes.

O gás natural se impõe como o grande vencedor nesse processo de mudança, já que será a principal fonte de geração de eletricidade no futuro. E não podemos nos esquecer do cobre, matéria prima para a infinidade de fios que transmitirão o fluxo de eletricidade das usinas aos consumidores.

Gráfico 5: crescimento projetado nas fontes de produção global de eletricidade em 2050

Fonte: Agência de Informação de Energia dos EUA

Refinitiv Eikon: Conheça o nosso conjunto definitivo de ferramentas para turbinar sua análise dos mercados financeiros