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O impacto do coronavírus sobre os mercados globais

Carl Larry
Carl Larry
Performance Director, Commodities

Desde o início da epidemia de Covid-19, os mercados financeiros estão sob muita pressão, volatilidade e, sobretudo, incerteza. Após o gigantesco tombo das bolsas de valores mundiais na semana passada –e apesar de toda a dúvida a respeito da gravidade da doença que vem se disseminando rapidamente—, investidores e analistas econômicos ainda não conseguem projetar um cenário definido para os possíveis efeitos do surto.


Neste post, fazemos um resumo do impacto do vírus sobre os mercados financeiros mundiais, mas sempre de uma perspectiva regional.

O que aconteceu?

Tomando como referência dados financeiros atuais e históricos –e considerando um período de tempo limitado—, vemos que o ritmo de propagação do COVID-19 é muito maior do que de epidemias anteriores (SARS, gripe suína etc). O momento desse surto também foi problemático, já que a China ainda está trabalhando por uma recuperação econômica após um morno 2019, e a primeira onda de negociações comerciais com os EUA encontra-se em andamento.

Obviamente, a desaceleração das importações pelo gigante asiático afetou diretamente a atividade de exportação de países ao redor do mundo. Isso, por sua vez, tem um efeito imediato sobre o petróleo, o GNL, produtos agrícolas e metais. No que diz respeito ao petróleo, vimos a China, o maior importador líquido da commodity, causar uma baixa de quase dez por cento sobre a demanda global em janeiro. No ano passado, o país estava comprando um total de 10,12 milhões de barris por dia (bpd), mas nos dois primeiros meses de 2020 esse número caiu para menos de 7 milhões (bpd). O diretor geral da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, chegou a afirmar que a revisão da demanda de petróleo para 2020 será a mais baixa em uma década.

Fonte: Refinitiv Eikon

O efeito a longo prazo também pode ser prejudicial para as preocupações ambientais, porque a China é um importante fornecedor de materiais para baterias. Ainda precisamos examinar os resultados financeiros que essas complicações podem gerar, mas, de qualquer forma, elas não são um bom presságio para os balanços do primeiro e do segundo trimestres de empresas desse setor nem para as economias dos países onde elas se encontram.

O que está acontecendo?

Como muitos participantes do setor financeiro costumam dizer, um breve momento no tempo significa uma eternidade para os mercados em movimento.

Estamos vendo os mercados se agitarem à medida que as atualizações ocorrem. Até agora, assitimos ao extraordinário corte de 0,5 ponto na taxa de juros pelo Fed, antecipando parte da redução que era programada para a próxima reunião do FOMC. A maneira como isso foi anunciado, no entanto, realmente pegou todo mundo de surpresa. Dias depois de termos sido tranquilizados pelo presidente Donald Trump sobre este não ser um momento de pânico, o Fed agiu de forma drástica.

Para se ter uma ideia, esta é a primeira vez que o banco central norte-americano age fora da reunião oficial da entidade e estipula um corte tão grande (0,5 ponto) desde a crise financeira de 2008. E, para acirrar ainda mais os ânimos, Trump deu declarações sobre a possível necessidade de cortes adicionais em breve.

Não há dúvida de que devemos ser proativos, e quanto mais cedo tomarmos determinadas providências, melhor. Isso nos leva a outro tema que gerou preocupação na semana passada: a OPEP. Por essa perspectiva, acredito que a OPEP deveria ter agido assim que as quarentenas na China entraram em vigor. Afinal, o país não é apenas a segunda maior economia do mundo, mas também o maior importador global de petróleo. Segundo a Reuters, a China importou uma média de 10 milhões de barris por dia (bpd) em 2019. A potência asiática conquistou o primeiro lugar como comprador da commodity ainda em 2017, quando os EUA adquiriram cerca de 4,5 milhões de barris (bpd) e a China, 7,5 (bpd), de acordo com a AIE.

Com as importações e exportações chinesas em baixa, a demanda de petróleo foi severamente afetada, mas a Opep se manteve firme. Somente agora, na primeira semana de março, que a entidade anunciou um corte na produção de 600 mil barris por dia.

Isso está aquém das expectativas do mercado, tanto pelo timing quanto pelo volume. Acreditávamos que a Opep seria mais precavida, anunciando uma redução de até 1 milhão (bpd) em sua produção. Portanto, desde então, os mercados de petróleo estão em declínio, e é provável que a tendência continue até que outras ações sejam executadas.

Há ainda muito pela frente, mas sigo afirmando que a melhor maneira de os investidores e as empresas se adiantarem aos acontecimentos é mantendo-se o mais bem informados possível. Notícias e dados confiáveis são o segredo para manter a calma durante as inevitáveis ondas de volatilidade.

Fonte: Refinitiv Eikon

O que pode acontecer?

Entre 2002 e 2003, lidamos com a epidemia de SARS. O problema começou no início de 2002, e o auge da crise, com um grande número de casos e de mortes, se deu em meados daquele ano. Como já mencionamos aqui, o surto atual se agravou rapidamente; os primeiros casos ocorreram há apenas dois meses. O número de infectados relatados está subindo rapidamente em todo o mundo – acima de 80 mil—, e as vítimas fatais já rondam os 2.700.

Fonte: Refinitv Eikon

Enquanto os países organizam quarentenas e enfrentam isolamentos econômicos, o impacto da doença parece estar aumentando de forma exponencial. A parte mais importante dessa epidemia, e de suas implicações financeiras e sociais, é a conscientização da população. Há, sim, uma grande chance de que essa pressão contínua e o contágio crescente levem a economia global à recessão. Nos mercados de petróleo, é possível vermos a cotação do barril caindo para as mínimas vistas em 2015, abaixo de US$ 30.

Focando no setor financeiro e de commodities, a chave para manter o equilíbrio é estar informado. Observar os mercados monetários é tão importante quanto seguir os índices de importação e exportação de commodities. Não há como prever um evento como o ‘black swan’, mas podemos usar a movimentação anterior dos mercados como comparação à medida que eles passam por essas graves anomalias. Como tudo neste mundo é um novo episódio de notícias, tudo também segue um ciclo familiar.

Como acompanhar os desenvolvimentos:

O aplicativo Corona Virus no Eikon é o lugar certo para acompanhar as principais manchetes, bem como os gráficos, dados e análises de impacto nos mercados, setores e classes de ativos de commodities. Se você é um usuário do Eikon, basta procurar por ‘Corona Virus’. Se você ainda não é usuário, obtenha acesso agora ou mude para o Eikon.

Efeitos regionais

Ásia

Impacto financeiro

Entre as economias asiáticas, a China é a que está passando pelo maior choque. O Japão segue com bases sólidas, embora a epidemia o esteja desviando do rumo. Para o país, o momento também não foi dos melhores, já que o governo japonês buscava um impulso econômico com as Olimpíadas de 2020.

Já na Coréia do Sul, a recente onda de casos de coronavírus representa uma ameaça para o outrora forte mercado de petróleo e de gás natural. Tirar a China da equação já foi ruim o suficiente, mas estender a retração aos outros principais importadores de energia, Japão e Coréia do Sul, representa um verdadeiro desastre.

Em relação ao mercado de ações da China, parece que já estamos presenciando uma contenção do declínio. Houve uma visível recuperação desde as mínimas do final de janeiro, apesar de ainda estarmos longe do fim da pandemia.

Contudo, é preciso abordar a situação com a mente aberta e pensar em todas as possibilidades. Achar que os mercados chineses estão operando normalmente parece ser um tanto quanto naive. Isso porque, por detrás das portas (sempre fechadas) é possível que o país esteja limitando a sua exposição ao mercado.

Após o Ano Novo Chinês, quando os investidores retornaram aos pregões, os juros de venda a descoberto no mercado de ações foi limitado pelo Regulador de Valores Mobiliários da China. Portanto, é bem possível que esses regulamentos ainda estejam em vigor, mas sejam aplicados em segredo.

Fonte: Refinitv Eikon

Outra preocupação sobre o mercado de ações chinês e seu verdadeiro objetivo é entender quem está negociando. A bolsa de valores da China é formada principalmente por investidores de varejo. Esses players dominam o dinheiro investido no mercado; em algumas contas, em até 75%. E, com muitas pessoas doentes ou em quarentena, é provável que esses investidores não estejam negociando normalmente. Isso levanta uma questão: a recuperação do mercado está realmente nesse nível ou haverá mais volatilidade e exposição negativa adiante?

Commodities

É fácil extrair dados de mercado chineses e, a partir daí, calcular o enorme impacto nas commodities. Se considerarmos apenas os efeitos gerados pelas recentes negociações comerciais com os EUA, veremos que estamos apenas tocando a superfície da questão, e como qualquer movimento econômico atinge todas as mercadorias importadas e exportadas pela segunda maior potência do mundo.

As importações de petróleo, por exemplo, deverão levar meses para se recuperar. As refinarias chinesas locais estão atrás de linhas de crédito por receio de não serem capazes de efetuar pagamentos. Já comentamos aqui que a Opep não se mexeu quando devia, no mês passado, e agora, qualquer movimento deles levará semanas para afetar o mercado em depressão.

Para não me estender muito, digo apenas que a situação é complexa e que levará tempo a ser reparada. Aliás, o impacto no mercado de commodities vai muito além do petróleo. O comércio agrícola continuará enfrentando questões sérias, e os metais seguirão sob pressão. Considere que o cobre e o minério de ferro já sofreram uma queda devido à fraca demanda da China, e isso deve perdurar.

Já no que diz respeito aos componentes para bateria, acredito que eles estão sendo negligenciados pelos analistas. Com uma quantidade significativa de metais de segunda classe originários de território chinês, os produtores de computadores, telefones celulares e veículos elétricos sentirão um baque.

Fonte: Refinitv Eikon

Tudo isso que acabei de expor é, claro, apenas uma revisão do mercado chinês. Mas, se mantivermos uma visão mais ampla, veremos que a perda da Coréia do Sul e do Japão é uma perda considerável para o setor de energia. Esses países são responsáveis por grandes importações de petróleo e de GNL e, quando começarem a sentir os efeitos da pandemia, suas respectivas economias também afundarão.

À medida que avançamos por outras regiões neste documento, é importante afirmar que esta não é apenas uma opinião sobre o que ainda pode acontecer com a epidemia de Covid-19, mas uma preparação para uma nova pandemia, que provavelmente ocorrerá em algum momento. Nos últimos 20 anos, tivemos vários surtos de doenças desconhecidas que causaram pânico, quarentena e fatalidades. A lição que devemos aprender com tudo isso é que eles nunca são facilmente resolvidos. A maioria leva pelo menos um ano para chegar aos estágios finais, e é importante lembrar que precisamos aprender com os ciclos históricos. Embora não seja indicativo do que acontecerá no futuro, este é um guia para o que sabemos que pode (e vai) acontecer, juntamente com uma grande dose de imprevisibilidade.

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América do Norte

Impacto financeiro

A última semana de fevereiro foi testemunha do declínio mais significativo no mercado de ações dos EUA nos últimos quatro anos. Diferentemente da maioria das oscilações das bolsas de valores nos últimos tempos, as razões por trás desse movimento estão bem definidas. Entre os traders e analistas com quem tenho contato, ainda há um otimismo, ou seja, o mercado teria exagerado em seu sentimento. Até o presidente Trump expressou confusão e raiva pelo mercado acionário dos EUA ter despencado tão abruptamente. Infelizmente, a descida continua conforme os casos de COVID-19 seguem aumentando.

Porém, a preocupação que deveríamos ter não é sobre a situação atual das bolsas, mas sobre os ganhos futuros das empresas que serão traduzidos nos índices norte-americanos. A redução do comércio com as principais economias asiáticas vai impactar os resultados corporativos do segundo e terceiro trimestres. Já começamos, inclusive, a ver os EUA levando isso em consideração, com considerações sobre um novo corte nas taxas de juros no horizonte.

Quando pensamos sobre a redução dos juros, vemos isso como uma boa medida, que ajuda a eliminar a fraqueza da economia norte-americana, mas isso não ajuda o comércio global.

Sim, um dólar mais fraco pode parecer uma opção atraente para as atividades comerciais, só que pressiona os países concorrentes, também afetados pelos negócios mais fracos. O resultado pode acabar sendo uma batalha monetária internacional, que precisará de alguma força econômica em algum lugar para combater os problemas em questão. Com essa pandemia ainda nos estágios iniciais, esse parece um cenário improvável, mas aí eu chamo atenção para uma regra básica da economia: causa e efeito.

Commodities

Após começar com o foco nos EUA, mudaremos para o Canadá e América Latina para expor nossa perspectiva sobre as commodities. Gostaria de iniciar com o Canadá e o peso de seu suprimento de petróleo bruto que, com a recente questão relativa à Teck Resources, é uma questão complexa no país. O CEO da empresa afirmou que as regulações canadenses são um obstáculo difícil de superar, mas a situação geral do suprimento global de petróleo pode ter tido algum papel sobre as suas decisões.

Desde que os EUA acabaram com a proibição de exportação de petróleo, em 2015, o país se tornou um importante fornecedor da commodity. Esse protagonismo norte-americano tem sido complicado para o Canadá, que sempre considerou os EUA como seu principal consumidor.

Inclusive, nos últimos anos, o Canadá vem se esforçando para descobrir maneiras de inserir seu petróleo no mercado global, mas os custos de transporte prejudicam muito suas margens de lucro.

Com o surto de coronavírus, estamos vendo os estoques de petróleo se acumularem ao redor do globo. Não é, certamente, um bom sinal quando barris norte-americanos ficam parados no Golfo dos EUA, e o Canadá também vê seu produto encalhado. Diante desse cenário, acreditamos que o maior impacto para o petróleo não ocorrerá nos países da OPEP e/ou nos EUA, mas no Canadá.

Pode ainda haver alguma esperança para o mercado de commodities canadense. Mais uma vez, é provável que o ouro seja um porto seguro. Em tempos de incerteza e instabilidade, o metal tem se mostrado imbatível. Aliás, o investimento nessa commodity pode impulsionar a mineração e a produção tanto no Canadá quanto na América Latina.

A A.Latina sempre foi um forte parceiro comercial da China, com produtos diversificados que vão de petróleo e metais a grãos e carne bovina. A maioria dos países da região pode continuar mantendo a estabilidade econômica se os EUA permanecerem viáveis. No entanto, se isso não acontecer nisso, devemos nos lembrar da penúria pela qual passa a Venezuela. Perdendo a China como parceiro comercial e, talvez, como um sólido apoiador de crédito, esses países podem sofrer rapidamente um colapso econômico.

Olhando de novo para os Estados Unidos, tudo se resume às negociações comerciais atuais. A maior economia do mundo estava entre os 10 principais fornecedores de petróleo da China em 2018 (US$ 6,8 bilhões). Isso representou cerca de 25% do petróleo importado pelo país asiático em 2018. Mas, conforme entramos em 2019 e o governo chinês impôs novas tarifas comerciais aos EUA, o produto norte-americano passou a representar apenas 5% do petróleo que ingressou no país. Essa pode até ter sido uma preparação involuntária para a baixa demanda causada pelo COVID-19, mas ainda sobra muita oferta no mercado global.

A recuperação do mercado não deverá ser suficientemete rápida para absorver esse excesso. Se o cenário econômico global continuar em declínio devido ao vírus, a oferta seguirá maior do que a procura, e a espera para o consumo do petróleo, longa.

Entretanto, a commodity que está sofrendo atualmente o maior golpe nos EUA é o GNL (gás natural liquefeito). Os preços do gás natural no país estão sob pressão desde o ano passado, o que o coloca sob ainda mais estresse.

Fonte: Refinitiv Eikon

Uma das esperanças para o setor de GNL nos EUA vinha sendo o impulso das exportações. Só para a Coréia do Sul, as remessas cresceram 5,5% em 2019, representando 18% do total importado pelo país ao longo do ano.

Porém, o recente surto de COVID-19 em solo sul-coreano deverá diminuir a demanda energética. E o grande prejudicado será o gás natural norte-americano. Agora, perdendo terreno, esse mercado sofrerá ainda mais pressão para reduzir a produção e aumentar o armazenamento. Não é uma tarefa fácil, especialmente porque existe uma quantidade significativa de gás associado ao processo de produção de petrolífera. Isso também não é um bom sinal para empresas focadas na construção de terminais de exportação de GNL. Uma hora a demanda retornará, mas agora será preciso revisar o orçamento e a previsão de resultados desses projetos.

A agricultura nos EUA também sentirá o efeito do menor consumo da China. Mas aqui, mais uma vez, as recentes guerras comerciais já tinham preparado o terreno. Nunca poderíamos prever que aprender a lidar com um cenário de comércio enfraquecido por causa das disputas tarifárias mitigaria a pressão provocada pela atual pandemia.

Fonte: Refinitv Eikon

O que resta agora é ver quanto tempo o produtor agrícola dos EUA pode aguentar sem a demanda chinesa em toda a sua força. Há esperança de que o Japão possa compensar parte dessa perda com as próximas Olimpíadas de 2020, mas há ainda um grande ponto de interrogação sobre como isso vai se desenrolar.

Após a rápida propagação inicial do vírus, temos que nos concentrar na sua contenção. Isso porque, se voltarmos a níveis administráveis da doença, teremos tempo suficiente para que o Japão se prepare, colhendo assim os benefícios econômicos dos jogos. E isso deverá ser suficiente para segurar o setor agrícola dos EUA durante estes tempos difíceis.

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Europa, Oriente Médio e África

Essa pode ser uma das poucas áreas em que não houve implicações econômicas significativas. Mas com os casos aumentando a cada dia na Itália e no Irã, todos os olhos voltam-se para a região.

Impacto financeiro

Assim que chegou 2020, uma das principais preocupações nessa região era como lidar com o Brexit. Embora tenha saído dos holofotes por enquanto, no futuro ele pode voltar a ser uma questão essencial para a UE e o Reino Unido. Segundo declarações do UE Commissioner na semana passada, ainda é muito cedo para falar sobre os prejuízos econômicos gerados pelo COVID-19.

Como temos deixado claro neste artigo, não esperamos muito mais efeitos imediatos. Por outro lado, acreditamos que os desdobramentos futuros podem se acumular.

A Alemanha admite essa possibilidade, e está inclusive entrando em estagflação. O país de Angela Merkel observa ainda que se a pandemia continuar afetando outras grandes economias, é provável que também venha a sofrer. É difícil tirar uma economia da recessão, inflação ou estagflação. E é obviamente muito mais complicado fazê-lo sob pressão de um surto global de vírus.

Países importantes como EUA e China lidam com grandes acordos comerciais. Em outros países, essas negociações podem ter uma amplitude menor, mas são exatamente elas que podem ser as mais afetadas. Importantes cidades como Wuhan favorecem negócios com governos mais amigáveis, fáceis de lidar. Dessa forma, o seu isolamento terá um sério impacto financeiro sobre esses parceiros, que, por serem menores, são mais dependentes dessas transações. Isso gera uma exposição que agora podemos não estar vendo nas bolsas de valores, mas que evoluirá com o tempo.

Commodities

Toda essa região depende muito de como o atual surto na Itália vai progredir. A progressão global é bastante importante, mas conforme surgem outros pontos de epidemia na Europa, as principais áreas de expedição de mercadorias –em especial a ARA (Amsterdã-Roterdã-Antuérpia)— causarão preocupação. Essa área portuária responde por mais de 25% dos ingressos de petróleo da Europa e é um local importante para transformar a commodity em exportações de produtos refinados.

De qualquer forma, os carregamentos já estarão em maior risco nessa área. Observamos taxas de envio em declínio acentuado até o final de fevereiro, e essa queda pode continuar. É difícil imaginar como o setor de transporte marítimo vem sobrevivendo a vários golpes nos últimos anos. Este, porém, pode ser um dos mais prejudiciais até o momento.

Fonte: Refinitiv Eikon

O Oriente Médio apresenta mais riscos quando se trata de petróleo e de China. Já mencionamos aqui que os sauditas e a Opep se recusaram a agir logo no início do surto. Entretanto, é provável que as negociações com a Rússia tenham contribuído para essa decisão. A Arábia Saudita é o segundo maior fornecedor de petróleo para a China, atrás apenas da Rússia. Se os russos não estiverem dispostos a cortar sua produção e suprimento para a China, os sauditas também não farão nada, o que, por sua vez, deixa a Opep sem um líder para comandar qualquer tipo de corte.

Isso não é um bom sinal para o excesso de oferta nos mercados globais e, se a pandemia de coronavírus continuar evoluindo, veremos os estoques de petróleo em um ponto sem retorno. Passamos por situação semelhante em 2015, quando a Opep se recusou a lidar com o boom da economia dos EUA, levando a um grande excesso de oferta e a queda de aproximadamente US$100 (por barril) para US$ 25. Espera-se que lições sejam aprendidas com os erros do passado, mas somos uma sociedade teimosa e cheia de otimismo em tempos econômicos estáveis.

Conclusão

Em 2019, realizei várias apresentações para grupos nos mercados financeiro e de commodities. Todas essas palestras tinham uma mesma linha: “O desconhecido desconhecido” (The Unknown Unknown). Eu me referia diretamente a uma citação do ex-secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld. Na maioria das vezes, a platéia ria, mas a verdade é que eu estava certo. Foi esse “desconhecido desconhecido” que criou uma das maiores crises financeiras globais que vimos desde a Grande Recessão.

Isso é algo importante a ser observado. Para aqueles que ainda consideram o mercado global de ações exagerado, é preciso lembrar de todas as coisas que ainda não entendemos. Há muito que não sabemos e muito mais que nunca poderemos saber.

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