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Os mercados emergentes estão se recuperando da Covid-19?

Ron Leven
Ron Leven
Professor de Economia na Duke University

A edição de novembro do Market Voice analisa a situação das ações em mercados emergentes à medida que se recuperam do impacto da pandemia. Por que alguns mercados, sobretudo os da Ásia, se recuperaram, enquanto outros, como os da Rússia e Turquia, ficaram para trás?


  1. Apesar da turbulência econômica deflagrada pela Covid-19, os mercados acionários de algumas economias emergentes já voltaram para os níveis anteriores à pandemia.
  2. O desempenho desses mercados, no entanto, tem variado conforme o cenário de cada país, com as ações na Ásia se reestabelecendo mais rapidamente do que na Rússia e Turquia, por exemplo.
  3. Ao levar as taxas de juros para próximo de zero, vários bancos centrais de mercados emergentes contribuíram para que suas economias beirassem a normalidade.

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A pandemia de coronavírus continua a prejudicar a atividade econômica em todo o mundo e não parece haver solução no horizonte imediato. Entretanto, os mercados de ações norte-americanos e globais se recuperaram.

O SPX está quase 4% acima do desempenho pré-COVID, apesar da atividade econômica e do emprego nos EUA ainda se manterem bem mais fracos. Os ganhos do SPX foram amplamente refletidos em índices financeiros ao redor do globo, mas os avanços foram particularmente expressivos nos mercados emergentes.

Equities de mercados emergentes superam as expectativas

Conforme indicado no Gráfico 1, o EEM (MSCI Emerging Market ETF) subiu recentemente em relação ao SPX, operando próximo da máxima histórica. Além disso, o EEM superou significativamente o desempenho do (mais amplo) VEA (Vanguard Developed Country ETF).

A mensagem é clara: as bolsas de valores em economias emergentes estão, em geral, superando a performance daquelas em mercados desenvolvidos, incluindo nos EUA.

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A trajetória da cotação do cobre também pode ser acompanhada no Gráfico 1 (linha roxa), já que a commodity funciona como uma referência em tempo real para a atividade econômica global.

Uma melhora geral das condições econômicas é indicada pelo comércio do cobre, cerca de 10% mais forte do que antes da crise sanitária. Mas a oscilação positiva da cotação do metal não parece refletir todo o cenário, visto que o EEM foi relativamente fraco durante os meses de verão no hemisfério norte mesmo com a constante alta dos preços do cobre.

E também há aquele clássico enigma sobre a galinha e o ovo. Afinal, a força do EEM decorre dos altos preços do cobre ou a atividade mais forte nas economias emergentes está impulsionando os preços do metal e das ações para cima?

Gráfico 1: Desempenho relativo dos mercados emergentes e preços do cobre

Fonte: Eikon – Clique no gráfico para solicitar um teste gratuito

Mercados emergentes: desempenho variado

O gráfico 2 mostra como a recuperação global nos últimos cinco meses vem se refletindo em diferentes mercados (convertidos em dólares).

Em linha com o Gráfico 1, o EEM subiu mais do que o dobro do VEA durante o período, mas houve uma variação substancial entre cada mercado.

Entre os desenvolvidos, o Japão acompanhou de perto os ganhos dos EUA. Já a Europa –e especialmente o Reino Unido, talvez devido à iminência do Brexit—, ficou em grande desvantagem.

Quando se trata dos EM, a diferença é ainda mais extrema. Os mercados emergentes asiáticos são os que apresentam melhor desempenho global, LATAM, misto, e EMEA (exceto a África do Sul), ruim.

Chama a atenção que Chile e Rússia, dois países voltados às commodities, tenham ficado para trás. Isso nos sugere que o desempenho das praças emergentes está elevando os preços do cobre, e não o contrário.

Mas, a pergunta que fica é: se os preços mais altos das commodities não são a origem da força dos EM, de onde ela vem?

Gráfico 2: Performance das equities desde 31 de maio (convertida em dólar)

Fonte: Eikon – Clique no gráfico para solicitar um teste gratuito

O que impulsiona o crescimento dos EM?

O Gráfico 3 sugere que parte do comportamento do mercado acionário reflete o sucesso relativo no controle da pandemia.

Conforme se vê na imagem, os novos casos nos principais países do Leste Asiático (incluindo o Japão) estão próximos de zero, sugerindo que a Covid-19 encontra-se sob controle (por enquanto) e que a normalização da atividade econômica é viável.

Embora a trajetória positiva dos mercados asiáticos possa, até certo ponto, ser atribuída ao enfraquecimento da crise sanitária na região, isso não é tudo.

Os EUA, por exemplo, têm se mantido relativamente forte, apesar de uma das maiores incidências de Covid-19 do mundo. E, mesmo o desempenho misto dos mercados LATAM ainda parece bom demais em relação à situação do coronavírus na região.

Gráfico 3: Novos casos diários de Covid-19 (por 100 milhões de habitantes, no final de outubro)

Fonte: Eikon –Clique no gráfico para solicitar um teste gratuito

O lado bom dos juros altos

Uma preocupação em relação ao Fed ou a outros bancos centrais de países desenvolvidos, que estão levando suas taxas de juros para próximo de zero (ou para terreno negativo), é que eles deixam pouca margem de manobra para lidar com uma eventual crise econômica.

Isso se provou verdadeiro em março deste ano, na esteira do choque financeiro desencadeado pela Covid-19.

Com pouco espaço para cortar taxas de juros, o Fed recorreu a meios sem precedentes de injeção de liquidez nos mercados, incluindo a compra de títulos municipais e corporativos de alta qualidade.

Embora os juros nas economias emergentes já viessem apresentando tendência de queda nos últimos anos, no início de 2020 eles estavam acima de zero na maioria desses países.

Consequentemente, foi possível fornecer suporte aos mercados financeiros por meio de taxas mais baixas.

Conforme vemos no Gráfico 4, as taxas estão levemente mais baixas nos países desenvolvidos, e o impacto na Europa e no Japão é discutível, pois eles já estão em território negativo.

Embora tenha havido uma grande variação entre os mercados emergentes, vários países encontravam-se em posição de oferecer alívio substancial por meio da redução dos juros. Os cortes nas taxas parecem ter sido bastante positivos na Índia, Indonésia, Brasil e, em menor grau, no México e no Chile.

Os ganhos no mercado brasileiro e, especialmente, no chileno têm sido limitados pela taxa de contágio relativamente alta que vimos no Gráfico 3. Nesses países, as taxas de câmbio se valorizaram mesmo com os juros mais baixos levando a melhores condições de crédito e ganho na conversão para o dólar, o que ofereceu um duplo impulso às ações.

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Apesar de os preços das ações chinesas terem sido alçados pela moeda local (CNY) mais forte, as taxas de juros no país estavam um pouco acima da curva. Mas isso demonstra que a China foi extremamente agressiva em sua resposta inicial ao vírus e agora está colhendo os benefícios dessa política, com praticamente nenhum relato de novos casos e retomada quase total da atividade econômica.

Taxas de juros mais altas costumam ser um sinal positivo de saúde econômica. Mas isso não se aplica à Turquia, onde as taxas dispararam 650 pontos base enquanto a lira turca (TRY) despencou 20%, refletindo uma política monetária e fiscal irresponsável que data de meados de 2019.

Embora o quadro na Rússia seja menos terrível, os cortes nas taxas de juros no país foram acompanhados pela fraqueza do rublo (RUB). Isso aponta para uma trajetória de alta da inflação que pode ser vista desde meados do ano passado, e que agora atingiu quase 4%.

Os mercados turco e russo tiveram os dois piores desempenhos desde maio, mas isso também se deve a fundamentos econômicos domésticos negativos, que antecedem a pandemia.

Gráfico 4: Mudança nas taxa básica de juros de 3 meses contra a valorização da moeda vs USD (desde 1º de junho)

Fonte: Eikon – Clique no gráfico para solicitar um teste gratuito

Taxas de juros em EM se aproximam de zero

Embora a Covid-19 continue a prejudicar a atividade social e econômica ao redor do globo, parece que alguns governos conseguiram conter o ritmo de contágio o suficiente para permitir a quase normalização da economia.

Na liderança desse movimento estão integrantes do Leste Asiático, onde houve poucos casos relatados nas últimas semanas.

Muitas economias emergentes também se beneficiaram do fato de seus bancos centrais terem começado a levar as taxas de juros em direção a zero, seguindo o exemplo de mercados desenvolvidos.

Enquanto alguns países, como Turquia e Rússia, viram suas moedas despencar junto com a queda dos juros, a maioria das divisas dos mercados emergentes se fortaleceu nos últimos meses, refletindo a melhora de sua situação econômica.

Com as taxas dos EM agora se aproximando de zero, como no mundo desenvolvido, a política de redução de juros como resposta à fraqueza econômica vem sendo abandonada. Ou seja, como os bancos centrais agora possuem pouca margem de manobra para reagir a um agravamento da pandemia, será fundamental monitorar o ritmo de contágio nesses países nos próximos meses.

Os assinantes do Eikon podem seguir essas informações em tempo real, bem como o impacto mais amplo do vírus na atividade econômica e nos preços de mercado, digitando ‘COVID’ no navegador Eikon.

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