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Voz do mercado: oportunidades nos mercados emergentes?

Ron Leven
Ron Leven
Macro Strategist for Brick Accretive Management

Com o coronavírus agravando ainda mais os sinais de fraqueza econômica e prejudicando as commodities, os mercados emergentes encontram-se sob intensa pressão. Em meio a esse cenário, o Market Voice de fevereiro examina, com a ajuda dos gráficos do Eikon, as perspectivas para as ações desses países, incluindo os riscos que o Brasil enfrenta.


  1. Mesmo antes do surto de coronavírus, as ações dos mercados emergentes (EM) já despertavam preocupação devido à ameaça de crescimento mais lento e queda nos preços das commodities.
  2. As bolsas de valores no Brasil e, especialmente, na Rússia, devem ser fortemente impactadas se a fraqueza dos preços das commodities persistir.
  3. Entre os países emergentes, a Índia é o que apresenta o melhor panorama –tanto em termos de crescimento real quanto em ganhos no mercado de ações—, já que o país se beneficia da exposição a preços mais baixos para as commodities.

Os mercados de ações iniciaram o ano em euforia, com os índices SPX e STOXX 600 em forte alta em janeiro e batendo recordes no início deste mês. No Japão, o TOPIX chegou a cair (no final de janeiro) em resposta ao coronavírus, mas já se recuperou e opera na maior pontuação de todos os tempos.

O medo em relação ao novo vírus ainda influi nesses mercados, embora eles se mantenham próximo ou pouco acima do nível de fechamento de 2019. Já as bolsas de valores dos países emergentes, que a princípio participaram do rali, começaram um movimento de venda em meados de janeiro e já se encontram, em média, três por cento abaixo da marca do final do ano.

Apesar de o fraco desempenho ser um reflexo direto da ameaça do coronavírus, o Gráfico 1 (abaixo) sugere que esses mercados estão sendo realmente prejudicados por fatores indiretos: perspectiva de crescimento mais lento e consequente queda nos preços das commodities.

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Baixo desempenho dos emergentes

Diante da incrível performance do SPX nos últimos dois anos –o índice disparou 24%, enquanto o STOXX, “apenas” 9%—, todos os outros mercados parecem um tanto tímidos. Mas, se compararmos o desempenho das ações de EM (veja o Gráfico 1) com o europeu STOXX 600, por exemplo, tudo parece dentro da normalidade.

Já os preços do cobre, considerados como um bom termômetro da atividade econômica no mundo, indicam que essas ações são particularmente sensíveis ao crescimento global.

O risco de PIBs mais fracos devido às tensões comerciais entre EUA e China foram assunto recorrente ao longo de 2019, levando, inclusive, à queda nos preços do cobre. E, como muitas economias emergentes dependem fortemente das exportações de commodities ou de manufaturas para a indústria, a perspectiva de uma desaceleração em nível mundial fez com que suas ações apresentassem um desempenho abaixo do esperado durante grande parte de 2019.

No final, diante do enfraquecimento da guerra comercial, as bolsas fecharam o ano com uma recuperação, mas o alívio durou pouco. Os sinais de alerta ressurgiram assim que se tornou evidente que o coronavírus poderia afetar seriamente a atividade econômica ao redor do globo.

Gráfico 1: Mercados emergentes versus STOXX e preços do cobre

Quadro 2: Desempenho das bolsas de valores e do PIB de países emergentes

Ganhos no mercado de ações desde o final de 2017 para as principais moedas emergentes versus crescimento real anual (mediana superior verde / mediana inferior vermelha).

Fonte: Eikon

Índia beneficiada pelas commodities

Pode ser um tanto quanto simplista tratar os mercados emergentes como um grupo unificado, já que são países geograficamente diversos e com dependência bastante variável das exportações de commodities.

A tabela acima, que inclui os principais países desse grupo, compara ganhos totais no mercado de ações (desde o final de 2017) com o crescimento real anual durante esse período. Como se observa, a relação entre mercado financeiro e desempenho econômico é modesta, mas notamos que os dois países com menor crescimento, Turquia e África do Sul, também apresentaram as bolsas de valores mais fracas.

Já a Índia pontuou bem, tanto em desempenho de ações quanto em crescimento do PIB. Isso porque, como importadora de commodities, ela se beneficia da queda nos preços globais. Além disso, suas exportações são mais voltadas ao setor de serviços, e menos suscetíveis a interrupções na cadeia de abastecimento relacionadas ao coronavírus.

A China, por outro lado, teve desempenho abaixo da média no mercado de ações e os maiores ganhos no PIB. Acreditamos, no entanto, que isso pode ser explicado pelas incertezas geradas pela guerra comercial e, mais recentemente, pelo surto de coronavírus.

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Bolsa de valores do Brasil

Dois destaques positivos são o Brasil e, principalmente, a Rússia, que alcançaram os melhores desempenhos na bolsa apesar do crescimento econômico abaixo do padrão. Ambos os países dependem fortemente das exportações de commodities, e portanto, em teoria, devem ser prejudicados pela queda dos preços.

Gráfico 3a: Desempenho da bolsa de valores brasileira e preços da soja

Gráfico 3b: Bolsa de valores russa e preço do barril de petróleo

Apesar de o Brasil ter uma economia diversificada e ser quase auto suficiente em energia, aproximadamente 15% de suas exportações consistem em soja e seus derivados. Em seguida, estão o minério de ferro (10%) e outras commodities agrícolas (5%.)

Conforme mostramos no Gráfico 3a, o mercado de ações brasileiro (em relação ao índice de EM) geralmente acompanha os preços da soja. Entretanto, no ano passado houve um forte desalinhamento,  com o prêmio da bolsa no patamar mais alto em cinco anos enquanto a cotação da soja tocava as mínimas em 10 anos.

A Rússia, por sua vez, depende do setor de energia, responsável por mais ou menos metade de suas exportações. Como no Brasil, no ano passado também ocorreu uma divergência: mesmo com a tendência de queda na cotação do petróleo, as ações na bolsa russa superaram o índice de EM.

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Rússia: há algo além do petróleo?

Com base no Gráfico 4, não parece haver muito mais por trás do ótimo desempenho russo no mercado de ações.

De fato, o setor de energia gerou grandes retornos (mais de 20%), mas o mesmo não pode ser dito de outras esferas da economia. A mineração avançou apenas cinco por cento, e as telecomunicações, só um pouquinho mais. Diante desses números, não esperamos um boom tecnológico para breve. Além disso, outros setores chegaram a cair, o que faz das empresas de energia os únicos propulsores reais da economia do país.

Gráfico 4: Resultados das ações por setor na Rússia (desde 2017)

Também não há indicação de que a Rússia esteja compensando preços mais baixos com um maior volume de exportação. Na verdade, como fica evidente no Gráfico 5, após a alta do ano passado, o volume de exportações vem diminuindo, e houve um declínio paralelo nos ganhos obtidos com a atividade.

E, com base nas projeções do Datastream, a produção de petróleo deve diminuir de forma constante ao longo dos próximos anos, o que torna injustificável o entusiasmo do investidor com o mercado de ações russo.

Gráfico 5: Volume de exportação de petróleo da Rússia e receita total gerada pela exportação

Diferentemente da Rússia, onde os ganhos do mercado acionário concentraram-se no setor de energia, no Brasil eles foram distribuídos de forma mais ampla –apesar de também atrelados à indústria extrativista. E, ainda mais importante: os resultados são mais modestos, e alinhados ao crescimento do PIB, indicando que não há uma bolha em formação na bolsa brasileira. 

Gráfico 6a: Ganhos setoriais no Brasil desde 2017

Gráfico 6b: BOVESPA e crescimento anual do PIB

Performance de cada mercado: conclusões

Os esforços para impedir a disseminação do coronavírus têm intensificado as preocupações com o ritmo da economia global, e o principal impacto até agora foi a queda nos preços das commodities. Dessa forma, os mercados de ações também passaram a mostrar sinais de fraqueza, especialmente os emergentes, mais dependentes das exportações desses produtos.

A Índia tem se destacado entre os países emergentes –tanto em crescimento real quanto em ganhos no mercado acionário—, já que o país se beneficia das cotações mais baixas para as commodities.

No que diz respeito a Brasil e Rússia, as perspectivas não parecem tão favoráveis. Isso porque os mercados de ações de ambos países (especialmente o da Rússia) mostram-se propensos à desaceleração se a fraqueza dos preços das commodities persistir.

Em relação ao mercado norte-americano, embora continuemos otimistas, a desaceleração da atividade global deve criar resistência a curto prazo.

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