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Reguladores focam em critérios ESG para combater o crime financeiro

Com um número cada vez maior de países se comprometendo a intensificar a luta contra o crime financeiro, agências reguladoras passam a se concentrar em questões ambientais, sociais e de governança (ESG). Por isso, na região do Oriente Médio e Norte da África (MENA), onde esses critérios ainda são pouco explorados, é imprescindível que as instituições financeiras integrem importantes considerações a esse respeito nos processos de due diligence.


  1. Nas últimas duas décadas, a importância dos critérios ESG para o setor financeiro cresceu exponencialmente, levando os reguladores a prestar mais atenção nessas questões ao formular políticas de combate ao crime financeiro.
  2. Uma recém-divulgada pesquisa da Refinitiv revela baixos níveis de conhecimento dos critérios ESG no Oriente Médio e Norte da África, o que eleva o risco e torna a região mais vulnerável.
  3. Para se alinhar à mudança de foco prevista pelos reguladores, bancos e outras “entidades obrigadas” da região devem incluir verificações de crimes ambientais e de tráfico de vida selvagem em seus processos de due diligence.

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Nos últimos meses, à medida que inúmeros governos respondem a compromissos internacionais, temos visto uma mudança nas normas destinadas a combater o crime financeiro. As agências reguladoras estão examinando mais de perto o impacto dos critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) sobre o assunto e formulando políticas para neutralizar potenciais efeitos adversos.

Aliás, podemos dizer que a maior conscientização sobre implicações financeiras dos fatores ESG começou a partir de 2004. O termo foi usado pela primeira vez nesse ano durante o Pacto Global da ONU, em uma iniciativa para promover a integração de fatores ambientais, sociais e de governança a investimentos.

A resistência inicial ao conceito foi mais do que compreensível, uma vez que as questões ESG eram frequentemente vistas como intangíveis, difíceis de medir e muito vagas para afetar as demonstrações financeiras das empresas. No entanto, as crescentes evidências de suas implicações para os negócios jogaram por terra o antigo conceito de que os relatórios corporativos deviam contemplar apenas dados financeiros.

Leia o relatório: “Financial Crime in the Middle East and North Africa 2021 Report Highlights”

Impacto do ESG no risco regulatório

Conforme compreendemos e aceitamos o valor do ESG para as demonstrações financeiras, e as fontes de informação aumentam, há também um melhor entendimento sobre a contribuição dos crimes ambientais, socias e de governança para fluxos financeiros ilícitos.

Existe uma urgência –em grande parte devido à pressão pública— para lidarmos com questões ESG específicas, como o comércio ilegal de animais selvagens. Hoje em dia, há espécies inteiras ameaçadas de extinção devido à caça descontrolada, o que, por sua vez, leva a danos ambientais e ameaça a segurança de comunidades vulneráveis.

Mas, por incrível que pareça, apesar de estampar as manchetes e atrair protestos generalizados, esse ainda é um problema incrivelmente complicado de resolver. Isso porque as recompensas envolvidas na extração de produtos de origem animal, como dentes e barbatanas, podem ser enormes.

Os reguladores ainda estão tentando entender como esse tipo de comércio consegue fazer a transferência de altas somas de dinheiro ao redor do mundo sem ser detectado, e ainda contribuindo para o financiamento de grupos terroristas.

A Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF, na sigla em inglês), entidade intergovernamental encarregada de estabelecer padrões para a comunidade internacional, lançou recentemente dois importantes relatórios sobre os padrões ESG: “Money Laundering from the Illegal Wildlife Trade in 2020”  e “Money Laundering from Environmental Crime in 2021”.

Luta contra o crime financeiro: mudança de escopo

A nova pesquisa realizada pela Refinitiv na região MENA sinaliza uma mudança no escopo do crime financeiro, portanto esperamos que as atualizações regulatórias incorporem rapidamente critérios ESG.

Vimos um dos primeiros exemplos disso na Sexta Diretiva Anti-Lavagem de Dinheiro da UE (6AMLD), lançada em junho deste ano. O 6AMLD visa unificar a definição de crimes relacionados à lavagem de dinheiro em todos os estados membros, e agora incluem-se entre eles crimes cibernéticos e ambientais.

Ou seja, qualquer empresa com interesse no mercado da União Europeia precisa relatar qualquer associação com fatores ESG ao se envolver com parceiros de negócios, clientes e fornecedores baseados na UE. Novas regulamentações desse tipo continuarão a ser divulgadas online.

Baixo nível de consciência

De acordo com os resultados da nova sondagem –disponíveis em nosso relatório sobre crime financeiro na região MENA em 2021—, a compreensão sobre a necessidade de se incluir critérios ESG nos relatórios financeiros das corporações ainda é pequena:

  • Menos de um quarto das empresas (24%) afirma ter um programa de combate ao tráfico de drogas/armas
  • Apenas 19% seguem procedimentos para evitar escravidão moderna/ tráfico humano
  • Somente 12% mantêm um programa anti-tráfico de vida selvagem

A falta de consciência ou de compreensão sobre a importância dos critérios ESG representa um risco elevado, tornando-se uma área de vulnerabilidade para as empresas.

Mesmo assim, os nossos dados indicam que as organizações da região MENA não estão fazendo muitos planos para ampliar o foco sobre os critérios ESG. Quando questionados sobre qual seria a prioridade se os investimentos em compliance aumentassem nos próximos dois anos, apenas 6% escolheram as práticas ESG.

Não há dúvidas de que a solicitação de informações ESG é uma tendência que continuará a se expandir. Assim, bancos e outras “entidades obrigadas” devem se preparar para integrar verificações sobre crime ambiental e tráfico de vida selvagem em seus processos de due diligence.

Houve um crescimento repentino nas fontes de dados e análises ESG, mas é essencial avaliar a integridade e a credibilidade dessas informações. Agora, portanto, é hora de os times de risco e compliance começarem a pesquisar e compreender as novas exigências regulatórias.