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Será que as sanções contra a Rússia podem ter efeito oposto ao esperado?

Edward Chancellor
Edward Chancellor
Breakingviews contributor

Neste post, Edward Chancellor, colunista do Breakingviews, se baseia em lições da história, unidade internacional e na atual capacidade da Rússia de resistir aos impactos financeiros para prever a efetividade das sanções impostas contra o governo de Vladimir Putin.


  1. Desde a malfadada invasão da Ucrânia pelo presidente Vladimir Putin, a Rússia foi expulsa do sistema financeiro ocidental e punida com uma série de penalidades econômicas e financeiras internacionais.
  2. Discursando no Fórum Econômico Mundial em maio, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy pediu sanções “máximas” para que a Rússia “conheça claramente as consequências imediatas de suas ações”.
  3. Os formuladores de políticas internacionais geralmente veem essas medidas como uma maneira relativamente rápida e “indolor” de as nações cumpridoras da lei punirem os transgressores. Mas, na verdade, a história mostra que sua eficácia é duvidosa e que, às vezes, elas podem sair pela culatra. Além disso, se tem um país que provou que pode suportar sanções, esse país é a Rússia.

O autor desse artigo é colunista da Reuters Breakingviews. As opiniões expressas aqui são suas.

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De acordo com o novo livro de Nicholas Mulder, “The Economic Weapon: The Rise of Sanctions as a Tool of Modern War” (ainda sem edição em português), as sanções foram implementadas pela primeira vez por Atenas, que impôs uma proibição comercial contra a cidade portuária grega de Megara em 432 a.C.

No entanto, seu uso só se popularizou durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Grã-Bretanha e a França montaram um extenso bloqueio econômico contra a Alemanha e seus aliados. A partir daí, as sanções passaram a ser vistas como uma ferramenta capaz de manter as nações em paz, e até o presidente dos EUA, Woodrow Wilson, chegou a afirmar que elas representariam “um isolamento absoluto, chamando a nação sancionada à razão”.

Então, em 1920, foi criada a Liga das Nações, entidade com o poder de impor sanções a países que violassem as leis internacionais. Em seus primeiros anos, ela teve excelentes resultados, fazendo com que potenciais incursões da Grécia e da Iugoslávia em nações vizinhas fossem interrompidas pela ameaça de um bloqueio comercial.

Mas o verdadeiro teste veio em 1935, quando o primeiro-ministro italiano Benito Mussolini invadiu a Etiópia. À época, apenas seis entre os 58 membros da Liga não impuseram sanções contra a Itália. A ideia era estrangular as exportações italianas para reduzir o acesso do país a reservas cambiais e limitar sua capacidade de levar adiante uma guerra. Porém, após vários meses de luta, o exército de Mussolini finalmente entrou em Adis Abeba e as sanções acabaram sendo suspensas.

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Lições da história

Há várias coisas a serem aprendidas com esse fracasso. Antes de mais nada, que as armas econômicas são menos eficazes quando utilizadas contra grandes estados, e que os primeiros defensores das sanções, como Wilson, tinham uma visão ingênua da natureza humana. Isso porque eles acreditavam que alguns povos desistiriam de ações agressivas quando vissem seus interesses materiais sendo ameaçados. Mas a triste verdade é que as nações e seus governantes, especialmente os autocráticos, às vezes têm outras prioridades em jogo.

Além disso, bloqueios econômicos incompletos são ineficazes. No caso da Guerra Ítalo-Abissínia, como os Estados Unidos e a Alemanha permaneceram neutros, a Liga não conseguiu suspender por completo o fornecimento de petróleo para a Itália. E, com o isolamento de Mussolini no cenário mundial, ele foi praticamente empurrado para os braços de Hitler. Já Alemanha e Japão, temendo que a mesma arma econômica fosse lançada contra eles, aceleraram sua busca por autossuficiência em matérias-primas.

No caso da Alemanha, isso significou avançar ainda mais para a Europa Central, anexando a Áustria em 1938 e a Tchecoslováquia já no ano seguinte; Hitler chegou até a dizer a um diplomata estrangeiro em 1939 que precisava também da Ucrânia para que os alemães nunca mais passassem fome. Enquanto isso, no outro lado do globo, o desespero do Japão por petróleo acabou por colocá-lo em conflito com os EUA.

Bem, como se pode ver, as sanções contra a Itália foram responsáveis por acelerar o início da Segunda Guerra Mundial.

Resiliência da Rússia às sanções

Atualmente, é a Rússia de Putin que assumiu o posto de pária internacional.

Ao contrário da Itália na década de 1930, os abundantes recursos naturais do país o tornam extraordinariamente resiliente à pressão econômica externa. Na verdade, sanções foram usadas pela primeira vez contra o Estado russo depois que os bolcheviques tomaram o poder em 1917, no que Mulder chama de uma forma de “contra-revolução barata”.

O novo regime resistiu a esse cerco econômico e até usou seu monopólio no comércio de algumas commodities para bloquear seu envio ao resto da Europa, assim como a Rússia hoje impede que o trigo ucraniano chegue aos mercados estrangeiros. Dessa forma, no início da década de 1930, quando os soviéticos cessaram quase todo o comércio com o mundo exterior, a autarquia russa estava completa.

A oposição internacional a Putin também está longe de ser uma unanimidade. Segundo o especialista em comércio internacional Simon Evenett, para cada país que sancionou a Rússia há três que não o fizeram, entre eles, gigantes como China e Índia; e cerca de metade das exportações russas vai para esses locais, cuja participação nas exportações aumentou acentuadamente na última década.

Há ainda o fato de a Europa continuar dependente da energia russa. Nos últimos três meses, as importações russas caíram mais rapidamente do que as exportações, produzindo um superávit comercial recorde.

Além disso, embora nações ocidentais tenham confiscado as reservas monetárias do país, o rublo se fortaleceu em relação ao dólar americano. E Evenett calcula que a suspensão das importações de energia russa pela Europa conseguiria reduzir permanentemente seu PIB em apenas 1%.

Investimentos estrangeiros na Rússia

No início da Primeira Guerra Mundial, a Rússia respondia por cerca de um quarto dos investimentos franceses no exterior. E o presidente Georges Clemenceau impôs sanções ao país em uma tentativa desesperada de fazer os bolcheviques honrarem as obrigações acordadas pelo regime czarista.

Mas os tempos mudaram. Agora, Washington está praticamente forçando um calote russo ao proibir os bancos ocidentais de receberem pagamentos de Moscou.

Fora isso, ações e títulos russos de propriedade de estrangeiros foram reduzidos a zero. Empresas multinacionais como McDonald’s (MCD.N), Renault (RENA.PA), British American Tobacco (BATS.L), Heineken (HEIN.AS) e BP (BP.L) estão vendendo suas operações russas a preço de banana.

É difícil ver como o cancelamento de centenas de bilhões de dólares de investimentos estrangeiros na Rússia convencerá Putin a mudar seu comportamento. E tudo isso ainda ​​ressalta outra característica indesejada das sanções: elas removem as proteções legais usualmente concedidas à propriedade privada, expondo os investidores a depreciações financeiras arbitrárias do Estado.

Contudo, entre as autoridades internacionais que logo se opuseram às restrições econômicas à Rússia, a maior preocupação era com o fato de que as sanções borram a linha entre o estado de guerra e o de paz. Afinal, não está claro em que momento uma nação sancionada considerará uma punição extra como um ato de guerra. Inclusive, o investidor bilionário George Soros disse ao público de Davos que, em sua opinião, a Terceira Guerra Mundial já havia começado.

A longo prazo, há ainda o perigo de que a invasão da Ucrânia e as sanções russas que a seguiram –como as impostas à Itália em meados da década de 1930— darão um novo impulso à desglobalização, levando a Rússia para o campo da China e derrubando o sistema financeiro baseado em dólar dos EUA.

Simon Evenett adverte que o advento de um mundo multipolar pode resultar em ativos ainda mais “encalhados” para os investidores ocidentais. Claramente, este não é um resultado desejável, mas a cadeia de eventos que foi posta em movimento pode fazer com que ele seja inevitável.

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