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Brasil busca aprimorar dados do café, que não fecham, diz diretor da Conab

Roberto Samora
Roberto Samora
Editor de Commodities & Energia, Thomson Reuters

As estimativas oficiais da safra de café do Brasil precisam ser melhoradas para espelhar com mais exatidão a realidade no maior produtor e exportador global do produto, uma vez que as informações publicadas pelo governo apontam colheitas tão baixas que não poderiam fazer frente ao consumo e exportações registrados, disse um diretor da estatal Conab à Reuters.

Neste contexto, a Companhia Nacional de Abastecimento está em processo de revisão de números e metodologias e buscando formas mais acuradas de obter dados para seus levantamentos, revelou Sérgio De Zen, diretor de Informações Agropecuárias e Políticas Agrícolas da Conab.

A rara afirmação de uma autoridade admitindo problemas históricos nas estimativas oficiais de café foi feita enquanto De Zen comentava números compilados pela Reuters de exportação, consumo interno e estimativas de safras dos últimos anos, que indicam que o quadro de oferta e demanda não fecha ao se confrontar os dados.

“Temos feito conversas com cooperativas, produtores e exportadores para convencê-los de que precisamos trabalhar juntos para chegar em uma estatística mais próxima da realidade”, disse De Zen, por telefone.

A discussão se dá em momento em que a safra brasileira foi efetivamente menor do que o esperado e abaixo do potencial, em meio a efeitos da seca histórica e geadas do ano passado –dados brasileiros mais acurados, portanto, seriam importantes para o mundo ter uma noção exata do que aconteceu.

Somando-se os déficits obtidos de 2017 a 2021 na relação consumo interno/exportação versus produção (estimada pela Conab), há um saldo negativo acumulado de 32,19 milhões de sacas de 60 kg. A título de comparação, esse volume equivale ao tamanho da safra de grãos arábica do país em 2022 (veja tabela abaixo).

“Já fizemos essa conta (exportação mais consumo interno menos produção)…”, disse De Zen, admitindo os problemas apontados nos dados de safra.

O diretor da Conab explicou que a Conab mantém os levantamentos, apesar dos números questionáveis, para não se perder uma base de dados.

A quantificação dos estoques no país poderia ajudar a solucionar a equação, mas as informações obtidas também têm problemas e fragilizam a elaboração de um quadro sobre a oferta e demanda no Brasil, comentou De Zen.

Em um movimento atípico e após uma safra ruim no ano passado, a Conab não divulgou neste ano seu tradicional levantamento anual de estoques privados de café, uma pesquisa feita junto a produtores, cooperativas, exportadores e indústrias, pelo fato de também questionar o modelo adotado.

“O nível de resposta (para a pesquisa de estoques) de café é muito baixo e a consistência das respostas também é muito baixa”, disse De Zen.

“Paramos de divulgar (o dado de estoque) porque o balanço de oferta e demanda não fecha.”

O diretor afirmou que os estoques nas fazendas, embora pulverizados, “não são desprezíveis”, o que poderia ajudar a entender as discrepâncias entre oferta e demanda.

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Revisões

De Zen, professor doutor da Esalq/USP, comentou ainda que a Conab tem um plano de revisar os dados do café, assim como já fez em 2020 com uma revisão de sete safras de soja, quando a conclusão de um trabalho resultou em oferta de milhões de toneladas acima do projetado anteriormente.

Não há um prazo para isso ser realizado com o café.

Os números da safra de café da Conab historicamente são abaixo dos projetados por instituições e analistas privados. A última previsão do Rabobank para a safra atual, por exemplo, é de uma safra brasileira de 63,2 milhões de sacas, versus 50,38 milhões de sacas da projeção da estatal, revisada para baixo esta semana.

A consultoria Safras & Mercado também projeta números mais altos que a Conab (58 milhões de sacas), enquanto o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estimou em junho a produção brasileira em 64,3 milhões de sacas.

De Zen disse que a atual gestão, quando chegou à Conab, encontrou “terra arrasada” no que diz respeito aos dados agropecuários, o que também colocou desafios para a adequação dos números, algo que precisa ser ação de “Estado e não de governos”.

Conforme o diretor da Conab, a estatal está no momento contratando um estatístico para trabalhar nas estimativas de café e a ideia é “mudar de cabo a rabo todo o sistema de levantamento”.

Isso inclui fazer o georreferenciamento de toda a área de café do Brasil –algo que foi feito apenas no Espírito Santo– para se ter uma exata noção da área cultivada.

Além disso, a Conab quer estabelecer novas metodologias para aferir a produtividade no campo, inclusive incorporando tecnologias como imagens obtidas por drones nas lavouras.

Procurado, o Conselho Nacional do Café (CNC), que representa os produtores, disse que o corte na estimativa de safra realizado nesta semana pela Conab “foi importante para mostrar a realidade da safra que está sendo colhida”. Mas afirmou também que é favorável a mais investimentos públicos e parcerias com a iniciativa privada para melhorias na metodologia de previsão de safra.

“Temos discutido… a possibilidade de novas metodologias serem aplicadas no levantamento da safra corrente. Assim, de forma estratégica, as cooperativas e os produtores poderão comercializar seu café no momento mais oportuno, sem sofrerem tanto com a especulação mercadológica”, disse o presidente do CNC, Silas Brasileiro.

Veja abaixo dados de consumo interno, safra e exportações do Brasil e cálculos de déficit no mercado brasileiro –importações de café pelo Brasil são relativamente incipientes (em milhões de sacas de 60 kg).

O maior déficit dos últimos anos foi obtido no ano passado, com mais de 14 milhões de sacas de diferença entre a produção e o consumo/exportação: