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Bolsonaro envia tanques às ruas para disfarçar posição enfraquecida

Anthony Boadle
Anthony Boadle
Correspondente da Reuters em Brasília

As nuvens de fumaça preta escapando de tanques velhos e veículos anfíbios que passaram diante do presidente Jair Bolsonaro na terça-feira foram uma cortina de fumaça insuficiente para um líder cujo apoio político declina e cuja reeleição está ameaçada.

Políticos e analistas disseram que a parada militar incomum diante do Palácio do Planalto, em Brasília, revelou não força, e sim a fraqueza política de um presidente que está nas cordas por ser incapaz de livrar o Brasil da pandemia de coronavírus e de uma crise econômica.

O senador Omar Aziz (PSD-AM), que preside a CPI da Covid que investiga como erros do governo contribuíram para o segundo maior número mundial de mortes pela Covid-19, classificou o desfile como uma tentativa “patética” de intimidar o Congresso.

“Bolsonaro imagina com isso estar mostrando força, mas na verdade está evidenciando toda a fraqueza de um presidente acuado pelas investigações de corrupção, inclusive desta CPI, e pela incompetência administrativa”, disse Aziz, cujo partido.

Na terça-feira, Bolsonaro foi incapaz de persuadir a Câmara dos Deputados a aprovar a PEC do voto impresso, que teria restituído a prática na eleição do ano que vem como reação às alegações de fraude eleitoral sem comprovação do presidente. Uma de suas maiores prioridades, ela ficou 79 votos aquém do necessário para seguir adiante.

Mas a visão de um comandante-chefe alardeando seus poderes marciais no dia de uma votação crucial tocou um nervo no país, cuja ditadura militar de duas décadas terminou em 1985.

“Seja ou não essa a intenção dos militares, tem um significado terrível de uma pressão sobre o Congresso Nacional”, opinou Carlos Melo, professor e cientista político do Insper. “O presidente não quer ser contrariado e resolveu demonstrar que tem o poder dos meios, não é o poder político, não é poder popular, é o poder dos meios. Isso é muito ruim para qualquer democracia.”

Bolsonaro, um ex-capitão do Exército, colocou vários militares em seu governo, sendo cerca de um terço no gabinete. Quando seu governo começou a enfrentar problemas, antagonizando tribunais e parlamentares, ele passou a se apoiar cada vez mais em demonstrações de apoio das Forças Armadas, uma das instituições mais respeitadas do país.

Em março, Bolsonaro demitiu seu ministro da Defesa, que resistiu a tal gesto, de acordo com pessoas a par do assunto, e o substituiu pelo general Walter Braga Netto, que atuava como ministro-chefe da Casa Civil.

Os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica renunciaram em protesto contra a interferência presidencial, e seus substitutos flanquearam Bolsonaro na terça-feira enquanto os tanques passavam.

A Marinha disse que a parada foi planejada muito antes da votação na Câmara ser agendada e que foi concebida para convidar o presidente a um exercício militar anual no domingo.

Não há precedente para tal ostentação na entrega de um convite ao evento anual.

A assessoria de imprensa presidencial não respondeu a perguntas sobre o desfile no dia de uma grande derrota legislativa.

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Jovem Democracia

Ex-generais e acadêmicos militares insistem que as Forças Armadas brasileiras, contidas após o constrangimento de duas décadas de governo militar repressivo na esteira do golpe de 1964, jamais afrontariam o equilíbrio de poderes da jovem democracia brasileira.

“As Forças Armadas respeitarão a Constituição do país”, disse o general de cavalaria aposentado Paulo Chagas, um ex-aliado de Bolsonaro, em uma mensagem à Reuters.

Mas o renascimento político do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ter perturbado os escalões militares mais conservadores.

Lula manteve relações cordiais com as Forças Armadas como presidente entre 2003 e 2010, mas o Partido dos Trabalhadores foi abalado por escândalos e ele foi condenado por corrupção, o que impediu uma nova candidatura em 2018.

Mas neste ano o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações de Lula, abrindo caminho para ele concorrer novamente à Presidência. Pesquisas de opinião mostram que ele derrotaria Bolsonaro com facilidade se a eleição acontecesse agora, mas nenhum dos dois confirmou que concorrerá.

Vendo sua aprovação recuar, Bolsonaro critica cada vez mais o sistema eleitoral brasileiro, e ameaçou não respeitar os resultados das urnas a menos que o pleito acontecesse com voto impresso.

Durante semanas, ele atacou o voto eletrônico nas redes sociais e em aparições quase diárias no rádio. Seus críticos dizem que, seguindo o exemplo de seu modelo político, o ex-presidente norte-americano Donald Trump, ele está semeando dúvidas para o caso de perder a eleição.

Quando o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, visitou Brasília na semana passada, pediu a Bolsonaro que não mine a confiança no processo eleitoral do Brasil, de acordo com autoridades da Casa Branca.

“Bolsonaro está menos preocupado com a segurança das urnas e mais interessado em criar uma narrativa consistente de fraude eleitoral, disseminando desconfiança popular sobre o sistema eletrônico. Essa derrota na Câmara é mais um pretexto para que ele endureça seus posicionamentos em 2022 e busque atrapalhar o processo das eleições, evitando (ou minimizando o impacto de) uma iminente derrota”, disse Guilherme Casarões, professor de política da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.

Segundo ele, o desfile militar e paradas recentes com milhares de motoqueiros mostram que Bolsonaro depende cada vez mais de demonstrações públicas de apoio na ausência de resultados políticos ou econômicos positivos.

Bolsonaro também se volta a políticas mais populistas para angariar aprovação, ampliando os benefícios sociais para as famílias mais pobres, o que leva investidores a se preocuparem com o ônus fiscal.

“Mas a economia não tem dado resposta”, disse Carlos Melo, do Insper. “Esses gestos como (o desfile) não aumentam a popularidade dele.”

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