Ir para conteúdo

Os anos Trump: cortes de impostos e guerras comerciais ofuscadas no fim por um vírus

Howard Schneider
Howard Schneider
Federal Reserve reporter, Thomson Reuters

De guerras comerciais a cortes de impostos, de desemprego ultrabaixo a máximas recordes nos mercados de ações e um sonoro ruído com o chefe escolhido por ele próprio para o Federal Reserve, o presidente Donald Trump conduziu a economia dos Estados Unidos em uma viagem selvagem antes mesmo que o coronavírus a jogasse de um penhasco.

Como resumir?

A resposta em fevereiro de 2020 seria diferente da de hoje. Há um ano, a economia dos EUA parecia ter se acomodado em um ponto ideal de crescimento estável, baixo desemprego, baixa inflação e, finalmente, aumento dos salários. Trump pode ter odiado o Fed, mas no final eles chegaram a uma trégua que manteve uma década de crescimento acelerado e derrubou a taxa de desemprego para uma mínima em 50 anos.

A pandemia mudou tudo isso e provavelmente deixará profundas cicatrizes econômicas. Aqui está o que se destaca:

Razão Emprego/População

Mais ampla do que a taxa de desemprego, a estatística captura o número de pessoas não apenas desempregadas e procurando por vaga, mas que também deixaram a força de trabalho, uma preocupação particular durante a pandemia. A medida vinha melhorando de forma constante e, sob Trump, continuou nesse caminho –até março de 2020.

“Você vê (a medida) entrar em colapso com os fechamentos causados pelo vírus, e a vê se recuperar em um ritmo rápido e depois parar”, disse Austan Goolsbee, presidente do Conselho de Assessores Econômicos do ex-presidente Barack Obama e professor de economia da Booth School of Business da Universidade de Chicago.

“Isso basicamente descreve a trajetória da economia. A maior causa é óbvia. A natureza descontrolada do vírus, que está absolutamente ligada a horríveis erros de política e supervisão.”

Taxa de Juros

A história dos anos Trump pode ser vista também na meta de taxa de juros do Fed, elevada no início à medida que cortes de impostos e gastos levaram a um crescimento maior do que o esperado, depois reduzida quando uma guerra comercial começou a esmagar o comércio global e posteriormente cortada a perto de zero quando a pandemia atingiu a economia.

Trump reclamou veementemente dos aumentos das taxas de juros pelo Fed, e ele pode ter tido razão. O banco central, por suas próprias razões, encontrou sua própria religião de taxas baixas que se preocupa menos com a inflação e com o “superaquecimento”, e provavelmente não aumentará os juros novamente por muito tempo.

O novo arcabouço de política monetária anunciado pelo Fed em agosto passado significa que “eles olham para trás implicitamente e veem a magnitude dos aumentos das taxas em 2017-2018 como um erro”, disse Jason Thomas, chefe de pesquisa do Carlyle Group. “Eles foram vítimas das modelos… O que estamos vendo agora no Fed é um esforço para não cair na mesma armadilha.”

Guerras Comerciais

As sementes da “desglobalização” podem ter sido plantadas bem antes da eleição de Trump e, como o debate do Brexit mostrou, ele não foi o único político a explorar esse sentimento.

Mas sua disposição de usar tarifas unilaterais e lutar não apenas contra adversários como a China, mas contra aliados ostensivos como a Alemanha, abalou a ordem comercial mundial.

Trump vai terminar seu mandato com os EUA amargando déficit comercial recorde –inevitável, talvez, devido à pandemia. Mas algumas de suas preocupações foram compartilhadas por outros países, como por exemplo sobre a fraca aplicação das regras de propriedade intelectual na China.

Com não apenas comércio, mas mudança climática e outros problemas na agenda mundial e do presidente eleito Joe Biden, “uma discussão que é mais multilateral do que bilateral pode ter mais progresso”, disse Raghuram Rajan, ex-chefe do banco central da Índia e professor de finanças da Booth.

“Faça o comércio simples voltar a funcionar… As áreas difíceis podem ser colocadas em um caminho separado… A China não deve sentir que está sendo pressionada.”

Descubra novas oportunidades com dados e conteúdo exclusivos oferecidos pelo Eikon. 

O Mercado de Ações

Trump tratou o mercado de ações como um cartão de pontuação para sua presidência, marcando cada recorde com um tuíte e culpando o Fed, entre outros vilões, por qualquer queda.

Considere isso uma história em dois capítulos, no entanto. Antes da pandemia, a combinação de cortes de impostos corporativos e desregulamentação promovidos por Trump, além do crescimento econômico contínuo, turbinou os lucros e os preços das ações.

Depois da pandemia, fica menos claro por que as ações estão turbinadas, mas a promessa do Fed de taxas de juros baixas por muitos anos e uma enxurrada de ajuda para combater a pandemia desempenharam um papel importante.

“Trump foi incomum ao vincular suas políticas e interpretações de suas políticas aos” preços das ações, disse o ex-membro do Fed e vice-reitor da Booth, Randall Kroszner.

“Agora as pessoas estão preocupadas com as ações do Fed e os esperados estímulos estão levando os mercados a níveis que não podem ser sustentados… mas isso diz algo sobre o progresso da economia dos EUA, mudanças fiscais, mudanças regulatórias.”

Afinal, foi a maior economia da história dos Estados Unidos?

Como acontece com muitas coisas sobre Trump, isso depende de a quem se dirige a pergunta. Também depende se o trecho de referência se relaciona a resultados de curto prazo ou questões de sustentabilidade de longo prazo –como o nível recorde de dívida do governo acumulado para financiar cortes de impostos e alívio da pandemia–, ou justiça, ou a qualidade de bens públicos, como o ambiente.

Para os democratas, pelo menos, as avaliações em relação à economia melhoraram notavelmente após a vitória do presidente eleito Joe Biden. Para os republicanos, o clima azedou.

Esteja sempre informado através do conteúdo do serviço brasileiro de notícias da Reuters